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CONCEITO DE INDÚSTRIA CULTURAL, ESCOLA DE FRANKFURT


João Canza

O Conceito de Indústria Cultural foi criado por Theodor Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer (1895-1973). Ambos membros de um grupo de filósofos conhecido como Escola de Frankfurt. [Adorno e Horkheimer definiram a conversão da cultura de massa em mercadoria semelhante a qualquer indústria baseada nos princípios da lucratividade].

A Escola de Frankfurt é de certa forma, fruto da conjuntura política dos anos 30.  Pois o que marca profundamente as análises da escola de Frankfurt é a sua reflexão sobre um mundo desencantado. Assim, a presença do fascismo influenciou o tom da análise frankfurtiano. A Escola enfatiza os elementos de racionalidade do mundo moderno para denunciá-los como uma nova forma de dominação. A Dialética do Iluminismo resume de forma exemplar esta filosofia da história que procura entender a racionalidade como espírito de previsibilidade e de uniformização das consciências. Quando Adorno afirma que a existência da poesia é impossível após Dachau, temos um exemplo claro de como os pensadores da Escola, tomam o nazismo como uma experiência que se desdobra no plano da reflexão.  Já o livro (Dialética do Iluminismo) se afasta dos diagnósticos anteriores, calcados sobre o fascismo, integra uma compreensão da história mais abrangente, e o que é mais importante, é escrito na década de 40, tomando-se em consideração o contato dos autores com a sociedade americana. Não se pode esquecer que nele, pela primeira vez, se fala em indústria cultural, conceito que sintetiza a crítica da cultura de massa nas sociedades modernas. Quando Adorno e Horkheimer (1975a, p. 101) afirmam que o Iluminismo "se relaciona com as coisas assim como o ditador se relaciona com os homens", que ele "os conhece na medida em que os pode manipular", de uma certa forma eles condensam seu pensamento a respeito da sociedade moderna. O conhecimento manipulatório pressupõe uma técnica e uma previsibilidade que possa controlar de antemão o comportamento social. No entanto é necessário entender que a crítica é de natureza filosófica e não histórica; isto é, ela não se preocupa em analisar, como faz o historiador, a emergência do pensamento moderno, mas propõe uma leitura do período que se fundamenta nas premissas filosóficas dos autores. Pode-se afirmar que existe um conceito de iluminismo particular aos frankfurtianos, e que ele não coincide com a análise da história da época. Nele podemos distinguir alguns níveis de significação: a) trata-se de um saber cuja essência é a técnica; b) promove a dimensão de calculabilidade e da utilidade; c) erradica do mundo a dimensão do gratuito (arte); d) é uma nova forma de dominação.

Quando os frankfurtianos se referem à cultura, eles utilizam o termo com um significado distinto do que lhe é conferido pelos antropólogos. Cultura não significa práticas, hábitos ou modo de vida, e se por um acaso é legítimo falarmos em antropologia, trata-se de uma Antropologia Filosófica. Na verdade os autores seguem a tradição alemã que associa cultura à Kultur, e a identificam com a arte, filosofia, literatura e música. As artes expressariam valores que constituem  o  pano  de  fundo  de  uma  sociedade.  Marcuse (1970) dirá que a
cultura é "o conjunto de fins morais, estéticos e intelectuais que uma sociedade considera como objetivo de organização, da divisão e da direção do trabalho". Para Adorno, “a indústria cultural ao aspirar à integração vertical de seus consumidores, não só adapta seus produtos ao consumo de massa, como determina o próprio consumo”. Assim o progresso tecnológico, converteu a indústria cultural num poderoso instrumento para conter o desenvolvimento da consciência das massas. Pois segundo ele, “indústria cultural impede a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e decidir conscientemente”.  Na medida em que a cultura se transforma em mercadoria o consumidor passa a se relacionar com ela segundo seu valor de troca. Ao contrário de Adorno e Horkheimer, Marshall McLuhan (1911-1980) via a atuação dos mdcm de maneira otimista. M.McLuhan, concluiu que “a televisão aproxima os homens, diminui distâncias territoriais, sociais e transforma o mundo numa espécie de aldeia global".  Walter Benjamin (1886-1940) havia afirmado que “a revolução tecnológica do final do século XIX e início do século XX, propiciou mudanças na percepção e na assimilação do público consumidor”. Como exemplo, citou a possibilidade de reprodução técnica das obras de arte, que segundo ele, “retirou delas o seu caráter único e mágico”. 
 (...) o impacto que a indústria cultural moderna pode provocar no público consumidor não é necessariamente negativo, contribui para a emancipação desse público consumidor e para a melhoria da sociedade como um todo, pois “amplia o horizonte de conhecimentos do indivíduo”.

É possível distinguir dois níveis na noção de ideologia: Histórico e Categorial. O primeiro pertence a filosofia da história que se articula nos diversos escritos dos autores. Quando os frankfurtianos escrevem sobre as sociedades avançadas, freqüentemente eles a comparam com as sociedades passadas, procurando captar o que há de específico nelas. A noção de ideologia continha um nível categorial. A filosofia da história subjacente levava necessariamente a uma redefinição do conceito, dando-lhe uma feição distinta da que a tradição marxista habitualmente lhe atribui. Partamos do encaminhamento do problema dado por Adorno e Horkheimer. Eles afirmam seus Temas Básicos de Sociologia: "só se pode falar sensatamente de ideologia quando um produto espiritual surge do processo social como algo autônomo, substancial, e datado de legitimidade. A sua inverdade é o preço desta separação, em que o espírito pretende negar sua própria base material" (6) . A ideologia pressupõe portanto a existência de um universo autônomo separado da realidade; neste ponto os autores seguem o pensamento de Marx e Lukacs, que consideram a oposição realidade/ilusão como elemento definidor da consciência falsa. Por isso o conceito de ideologia pode ser aproximado ao de alienação, que pressupõe uma oposição interna ao que é considerado alienado e alienante. Quando Hegel dizia que o Ser do escravo estava alienado no Ser do senhor, ele captava, por um lado a dominação entre senhor e escravo, mas por outro ele apontava para contradição real entre os dois termos, o que significa assumir que o processo de superação, filosófica e histórica, estaria assegurado em virtude da existência mesma da contradição.
A ideologia é o travestimento da realidade, é da distância entre o real e o ilusório que ela retira o preço de sua inverdade.

TOMAZI, Nelson Dácio [coord.]... et alii. Iniciação à sociologia. São Paulo: Atual, 1993. p. 195-7.